
A palavra hieróglifo para designar os símbolos, ícones e índices egípcios antigos vem do grego: ἱερός (hierós) "sagrado", e γλύφειν (glýphein) "escrita". Apenas os sacerdotes, membros da realeza, altos cargos, e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais "sagrados".
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A escrita hieroglífica constitui provavelmente o mais antigo sistema organizado de escrita no mundo, era utilizada originalmente para inscrições formais nas paredes de templos e túmulos. Com o tempo evoluiu para formas mais simplificadas, como o hierático, uma variante mais cursiva que se podia pintar em papiros ou placas de barro, e ainda mais tarde, com a influência grega crescente no Oriente Próximo, a escrita evoluiu para o demótico, fase em que os hieróglifos iniciais ficaram bastante estilizados, havendo mesmo a inclusão de alguns sinais gregos na escrita.
A forma que e esta escrita, bem como, o idioma Egípcio desapareceram esta bem explicada no artigo deste blog http://psico-pictografia.blogspot.com/2011/02/desenhos-ganham-vida-depois-de-3800.html

Muitos outros haviam tentado decifrar os hieróglifos sem muito sucesso, as antigas interpretações eram muito mais voltadas para a escola mística (de forma bastante equivocada) do que para a escola cientifica. Eis que surge Jean-François Champollion (Figeac, 23 de Dezembro de 1790 — Paris, 4 de Março de 1832).
Champollion tinha como grande amigo e incentivador o físico Joseph Fourrier, que admirava muito a inteligência daquele jovem 11 anos. Champolion andava pela casa de Fourrier e admirava muito a coleção de arte egípcia, reunidas durante as expedições napoleônicas. “O que significa isso?” perguntava o garoto e a resposta de Fourrier era sempre a mesma – “Ninguém sabe”.
A genialidade lingüística e sua compulsiva e persistente paixão por conhecer o Egito fizeram com que Champollion não descansasse, ele conhecia mais de doze idiomas, muitos deles do Oriente Próximo. Era uma das poucas pessoas, no começo do século dezenove, que conheciam o copta, língua que sucedeu ao egípcio antigo.
Havia uma forte corrente na época que dizia que os hieróglifos eram meras metáforas pictóricas, mas a riqueza de detalhes e o enorme numero de imagens, bem como os padrões repetitivos indicavam claramente a Champollion uma forma de escrita.
Ate que Champollion começa a estudar uma pedra negra encontrada por um soldado Frances que servia na cidade de Rashid no ano de 1799. Era evidente para Champollion que o texto se repetia nas três formas de escrita. Champollion leu facilmente a parte em grego e descobriu tratar-se de inscrições em comemoração a coroação de Ptolomeu V Epfânio, pelo congresso de sacerdotes de Mênfis na primavera de 196 a.C.

O Texto em Grego
“CA - 1. No reinado do jovem que sucedeu o pai na realeza, senhor de diademas, o mais glorioso, aquele que fundou o Egito e foi piedoso.
2. Para os deuses, triunfantes sobre seus inimigos, que restabeleceram a vida civilizada dos homens o senhor dos festivais dos Trinta Anos, como Hephaistos, o Grande, um rei como o Sol,
3. Grande rei dos países Alto e Baixo, concebido pelos Deuses Philopatores, um dos quais Hephaistos aprovou, para quem o Sol tem concedido a vitória, a imagem viva de Zeus, filho do Sol, Ptolomeu
4. Abençoado com a vida eterna, amada\o de Ptah, no nono ano, quando o filho de Aetos era o sacerdote de Alexandre, e os Deuses Soteres, e os Deuses Adelphoi, e os Deuses Euergetai, e os Deuses Philopatores e
5. O Deus Epifânio EUCHARISTOS; Pirra filha de Philinos que é Athlophoros de Berenike Euergetis, filha de Areia de Diogenes qsendoKanephoros de Arsinoe Philadelphos; Irene
6. Filha de Ptolomeu a Sacerdotisa de Arsinoe Filopator, o quarto do mês de Xandikos, de acordo com os egípcios, o 18 º Mekhir.
CB - DECRETO. Estando juntos os Chefes dos Sacerdotes e Profetas e aqueles que adentram ao interior do santuário para colocar as vestimentas de
7. Deuses, e os portadores de abanos e os Escribas Sagrados e todos os outros sacerdotes dos templos ao longo da terra que vieram ao encontro do rei em Memphis, para a festa da Assunção
8. Por Ptolomeu, a abençoado com a vida eterna, o amado de Ptah, Deus Epifânio EUCHARISTOS, a realeza na qual ele sucedeu seu pai, estando eles juntos no templo de Memphis neste dia declararam:
CC - 9. Considerando que o rei Ptolomeu, a abençoado com a vida eterna, o amado de Ptah, o deus Epifânio EUCHARISTOS, o filho do rei Ptolomeu e da rainha Arsinoe, os Deuses Philopatores, foi um benfeitor tanto para os templos e
10. Para aqueles que neles habitam, bem como todos aqueles que são seus súditos, sendo um Deus concebido por um deus e uma deusa (como Hórus, o filho de Ísis e Osíris, que vingou seu pai Osíris) (e) estando benignamente despachado para
11. Os deuses, dedicaram aos templos rendas em dinheiro e milho e empreendeu muito para trazer o Egito para prosperidade, e estabelecer os templos,
12. E têm sido generosos com todos seus próprios meios, e das receitas e impostos arrecadados no Egito alguns ele remeteu totalmente e outros que ele aliviou, para que o povo e todos os outros tenham a chance de
13. viver na prosperidade durante seu reinado; CD - e considerando que ele aliviou as dívidas dos muitos que deviam no Egito e do resto do reino absorvendo-as pela coroa. E que aqueles que foram
14. presos, e aqueles que estavam sob sentença há muito tempo, ele os livrou das acusações, e considerando que ele fez com que os Deuses continuem desfrutando das rendas dos templos e das mesadas anuais dadas a eles, tanto de
15. Milho como de dinheiro, igualmente também a renda atribuída aos deuses da terra das vinhas e dos jardins e outras propriedades que pertenciam aos Deuses no tempo de seu pai;
CE - 16. E que ele também se dirigiu com respeito aos sacerdotes, para que eles não precisassem mais pagar a taxa de admissão ao sacerdócio mais carão do que aquela paga durante o reinado de seu pai e até o primeiro ano de seu próprio reinado, e isentou os membros das
17. ordens sacerdotais da viagem anual para Alexandria; e considerando que ele retirou a obrigatoriedade de alistamento para a marinha e do imposto em linho fino pago pelos templos à coroa ele
18. reduziu dois terços, e para todas as coisas que foram negligenciadas em tempos anteriores ele restabeleceu a ordem, teve o cuidado de rever como os direitos tradicionais deverão ser devidamente pagos ao Deuses;
19. E da mesma forma tem proporcionado justiça a todos, como Hermes, o grande dos grandes; CF - e ordenou que aqueles que retornassem da classe de guerreiros, e de outros que fossem desprovidos
20. de seus pertences em dias de distúrbios, deveriam, quando do seu regresso serem permitidos a ocuparem as suas posses antigas; e considerando que ele, fez com que a cavalaria e a infantaria e os navios deveriam ser enviados contra aqueles que invadiram
21. o Egito por mar e por terra, investindo grandes somas em dinheiro e milho para que os templos e todos aqueles que estão na terra possam estar em segurança; CG - e tendo
22. ido a Lycopolis no Nomo de Busirite, que havia sido ocupada e fortificada contra um cerco com uma quantidade abundante de armas, e todos os demais suprimentos (já que agora era desafeto de longa
23. data dentre os homens incrédulos que haviam se juntado a ele, que tinha perpetrado muito dano aos templos e para todos os habitantes do Egito), e tendo
24. ele encampado esta querela, cercou com montículos e trincheiras e com fortificações elaboradas; quando o Nilo fez uma grande elevação no oitavo ano (de seu reinado), que normalmente inunda
25. as planícies, prevendo isto, ele represou em diversas localidades as saídas dos canais (dispondo para isso de pequena quantia em dinheiro), e dispôs a cavalaria e infantaria para tomarem conta
26. E então, em curto espaço de tempo ele tomou a cidade rápido como um raio e dizimou todos os incrédulos, tal qual Hermes e Hórus, o filho de Ísis e Osíris, anteriormente subjugaram os rebeldes no mesmo
27. distrito, e como para aqueles que haviam liderado os rebeldes, no tempo de seu pai e quem tinham perturbado a terra e profanado os templos, ele veio a Memphis para vingar
28. seu pai e sua própria realeza, e os castigou como mereciam, no momento em que ele lá chagou para dar inicio as próprias cerimônias de coroação, e considerando que ele remeteu o que
CH - 29. era devido à coroa pelos templos até o seu oitavo ano, não sendo esta uma pequena quantia em dinheiro ou milho, bem como as multas pelo fato de o linho fino

30. não ter sido entregue à coroa, e da parte entregue, as várias taxas para sua verificação, para o mesmo período, e ele também livrou os templos do (imposto) da artabe para cada aroura de terra sagrada e igualmente
31. uma jarra de vinho para cada aroura de terrenos de produção de vinha, e considerando que ele deu muitos presentes em Apis e Mnevis e os outros animais sagrados no Egito, porque ele tivera muito mais consideração do que os reis que reinaram antes dele e tudo que dizia respeito
32. aos Deuses, aos funerais ele deu o que era apropriado e esplendoroso, e o que foi pago regularmente para os santuários especiais, com sacrifícios, festivais e outras observâncias habituais;
33. E ele manteve a honra dos templos e do Egito, de acordo com as leis, e ele adornou o templo de Apis com trabalho rico, investindo neles com ouro e prata
34. e pedras preciosas, não fez economia, e considerando que ele fundou templos e santuários e altares, e restaurou aqueles que precisavam ser restaurados, tendo o espírito de um Deus beneficente em assuntos pertinentes à
35. religião, e que, após criteriosa pesquisa veio a restaurar o mais honrado aos Deuses que lhe proporcionaram a vitória, saúde e alimentação, e todas as outras coisas boas,
CI - 36. e ele e seus filhos deverão manter a realeza para todo o sempre. COM FORTUNA PROPÍCIA: Foi estabelecido pelos sacerdotes de todos os templos da terra aumentar grandemente as honras existentes de
37. Rei PTOLEMAIO, O ABENÇOADO COM A VIDA ETENA, O AMADO DE PTAH, O DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS, também os de seus pais os Deuses Philopatores, e de seus antepassados, os Deuses e Euergetai
38. Os Deuses Adelphoi e Soteres e criar no lugar mais proeminente de todo templo uma imagem do rei abençoado com a vida eterna PTOLEMAIO, O AMADO DE PTAH, O DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS,
39. Uma imagem que será chamada de “Ptolomeu, o defensor do Egito”, ao lado do qual deve estar o Deus principal do templo, entregando-lhe a arma da vitória, os quais devem ser fabricadas à
40. moda (Egípcia), e que os sacerdotes prestarão homenagem às imagens três vezes por dia, e vestirão as vestes sagradas, e executarão as outras honras habituais, como as dadas nas outras
41. festividades de Deuses do Egito, e estabelecerão para Rei PTOLEMAIO, O DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS, concebido pelo Rei Ptolomeu e pela rainha Arsinoe, os Deuses Philopatores, uma estátua e santuário dourado em cada um dos
42. templos, e para que seja arranjado no interior das câmaras de todos os outros templos; e nos grandes festivais nos quais os ostentórios são carregados em procissão o santuário do DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS deverá ser levado em procissão.
CJ - 43. E a fim de que seja reconhecido facilmente agora e por todo o tempo, deverá ser colocado em cima do santuário os dez diademas de ouro do rei, ao qual será adicionado um uraeus, mas em vez de
44. uraeus em forma de diademas, como os que são encontrados nos outros santuários, no centro deste deverá ter a coroa chamada de Pschent, a mesma que ele usou quando entrou no templo em Mênfis
45. Para que se de seqüência às cerimônias de coroação; deverão ser colocadas na superfície quadrada sobre os diademas, ao lado da coroa acima mencionada, os símbolos de ouro (em número de oito, significando)
46. que (o santuário) do rei que se manifestará sobre o Alto e Baixo pais (Egito). CK - E já que é a 30 de Mesore, mês que o aniversário do rei é celebrado, e da mesma forma (17 de Paophi)
47. dia em que sucedeu seu pai na realeza, eles celebrarão estas datas a honra de dias de festas nos templos, pois eles são fontes de grandes bênçãos para todos, foi ainda decretado que um festival será mantido nos templos em todo o Egito
48. Nestes dias em cada mês, sobre o qual haverá sacrifícios e libações e todas as cerimonias costumeiras em outros festivais (e as oferendas devem ser dadas aos sacerdotes que)
49. servidas nos templos. CL - E um festival será celebrado para o Rei PTOLEMAIO, O ABENÇOADO COM A VIDA ETERNA, O AMADO DE PTAH, O DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS, anualmente nos templos ao longo de todo
50. o país a partir de 1 de Thoth durante cinco dias, nos quais usarão guirlandas e farão sacrifícios e libações e outras honras habituais, e os sacerdotes (em cada templo) serão chamados
51. de sacerdotes de EUCHARISTOS DEUS EPIPHANES em adição aos nomes dos outros Deuses a quem eles servem, e seu sacerdócio será inscrito sobre todos os documentos formais (e será gravado nos anéis que eles usam);
52. E os indivíduos do povo serão também autorizados a celebrar o festival e montar o santuário referido e tê-lo em suas casas, realizando as comemorações acima descritas
53. anualmente, a fim de que possa ser conhecido por todos os homens do Egito que possam elevar e honrar o DEUS EPIPHANES EUCHARISTOS o rei, de acordo com a lei. CM - Este decreto será inscrito sobre uma estela de
54. pedra dura em inscrição sagrada [hieroglífica] e nativa [demótica] e caracteres gregos e configurar em cada um dos templos de primeira, segunda e terceira [classificação] ao lado da imagem do rei abençoado com a vida eterna.”
Texto original em Grego
Champollion sabia agora do que se tratava, de fato era um decreto escrito em pedra de basalto, fragmentado, que fora colocado nos principais templos do Egito com 54 linhas restantes escritas em - C Grego, 32 linhas restantes em - B Demótico (ou novo Egípcio) e 14 linhas restantes em – A Hieróglifo (velho Egípcio).
O primeiro passo para considerar a leitura dos textos era saber se o texto deveria ser lido da esquerda para a direita e/ou vice-versa, talvez foi somente neste ponto que Champollion fez uso da escola mística, acreditando que os seres vivos olhavam para o inicio da frase.
Ele estava certo, então a partir dai usou de pura lógica para continuar seu trabalho. Começou por sobrepor os nomes que aparecem dentro de cartouches (usados para encerrar nomes de reis e rainhas), e por associação encontrou letras que formavam os nomes de Ptolomeu.
Comparado com o nome de Cleópatra identificou um alfabeto simples.
Também não teve dificuldade para encontrar numerais ao comparar as datas escritas em grego com o padrão repetitivo de caracteres do egípcio antigo.

Uma vês decifrado o alfabeto e os numeros, Champollion encontrou outros grupos de caracteres bi-consonantais e tri-consonantais.
Podemos entender como estes grupos funcionavam se adaptarmos eles para o idioma português da seguinte forma:
Se quisermos escrever ramo (como um ramo de folhas) desenhamos o ramo;
Se quisermos escrever o nome Ramos (como em Tonny Ramos) excluímos as vogais, colocamos o desenho do “ramo” e adicionamos um ideograma de nome (pessoal).
Se eu quiser escrever remo uso o mesmo símbolo com o ideograma de remo na frente.

Era assim que os Egípcios antigos faziam.
Agora só o que tinha que fazer era encontrar as palavras egípcias antigas que haviam sobrevivido sem alterações no idioma Copto e/ou no hebraico.

Vejamos abaixo a tradução da linha 10 em hieróglifo.

Tradução da linha 10 da seção de hieróglifos
AK- ...um cesto de papiro no canto esquerdo do templo deixado às duas senhoras Nekhbet e Wadjit que iluminam as duas terras, o alto e o baixo Egito. Uma vez que no quarto mês da inundação Shemu ultimo dia do nascimento do Deus bondoso e abençoado com a vida eterna fica estabelecido a celebração na terra de Horus Her Taui da mesma forma que era procedido antigamente. No segundo mês de akhet no dia 17 celebra-se a coroação de quando assumiu o reinado de seu pai. Eis agora o começo da lista de oferendas...

Graças a Champollion e sua grande dedicação a estes símbolos, ícones e índices hoje somos capazes de ler textos antigos, saber mais sobre nossas raízes históricas, entender melhor nossos antepassados para viver com plenitude em dias atuais.